A consulta

Certa vez, estava mudando de trabalho e precisei fazer um exame admissional para a empresa nova. Era dezembro, estava calor e eu vesti uma camiseta, um jeans e fui embora. É claro que fiquei com os braços de fora, cheios de pipoca, mas não tinha como não ficar.

Quando eu peguei o metrô e comecei a notar que tinha uma galera me olhando. E quem tem psoríase sabe: transporte público é foda, ninguém fala nada, mas é cada olhada que você leva!

ons.gif

Como desgraça pouca é bobagem, notei que eu exalava um cheiro ruim.

Comecei a procurar de que parte o cheiro vinha e quando olhei para o meu all star branco, constatei que havia pisado na merda. “P O R R A! Me ajuda a te ajudar.” Pressenti que esse ia ser um dia daqueles.

Chegando no consultório, um lugar sujo, instalações precárias, cheio de gente no centro de São Paulo, eu sabia que seria rápido, esses médicos só medem a pressão, perguntam se você tá grávida e carimbam seu papel.

Peguei a senha, fiz uma conta mental de quanto tempo levaria pra chegar a minha vez e fui no banheiro limpar meu tênis cagado, quando chamaram meu nome.

Entrei no consultório, uma sala menor do que o próprio banheiro. A médica, uma mulher cheia de plásticas, cabelo tingido num loiro feio e maquiagem exagerada. Era tipo uma Elke Maravilha que deu muito errado. Ela fez as perguntas de praxe sem olhar diretamente pra mim. Olhava só pros meus braços. “o que é isso?” perguntou já pegando e revirando um dos meus braços.

“É psoríase”, respondi naturalmente. Muita gente pergunta, e ela sendo médica, achei ok ela perguntar já pegando em mim assim, mas não deixou de ser constrangedor.

“Tá bem atacado né”, continuava sem me olhar na cara, só investigando minha pele.

“É”. Sinceramente, não precisa me dizer quando o negocio tá atacado, né?! A coceira já faz isso. Não contente com todo o constrangimento, ela emendou:

“Como você tem coragem?” perguntou como quem pergunta meu nome, assim, normal.

Naquela hora eu fiquei surpresa, e não consegui falar nada a não ser um tímido “Hãn? Como assim?”, já sentindo as minhas orelhas pegando fogo, com vergonha, raiva e mais um monte de sentimentos.

Ela percebeu. “Eu admiro muito você ter coragem de sair assim de camiseta de casa, quem tem psoríase se esconde, usa roupa comprida”. Eu continuava sem graça. Não sei se era pra eu ficar feliz com aquilo. “Parabéns”, ela finalizou.

Eu nem consegui agradecer. “Está calor e eu morreria se saísse de casa de blusa de frio”.

Ela assinou meu formulário e disse que eu estava apta para trabalhar. “Boa sorte, até logo”.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s