O homem do metrô

Um dia comum, a pele num tava muito boa não, mas como disse, comum. Eu to no metrô, na linha verde, em pé e segurando naquela barra do metrô pra não cair.

Eu to distraída e uma pessoa me olhando, procurando o meu olhar, daquele jeito que a pessoa quer puxar assunto.
“Hein?”

Tiro o fone de ouvido. “Oi”. O homem tem uma aparência simples, uns 45 anos, parecia o Danny Devito, só que mais bronzeado.

Apontando pra minha mão que tava na barra. “Eu já tive isso aí, passa a pomada tal (não lembro o nome) que passa”. Falava rápido e meio grosso.

Eu estou sendo paciente com ele. Ok, talvez eu tenha revirado os olhos. “Mas o meu é genético, não tem cura”. A essa altura eu já estou arrependida de ter tirado o fone de ouvido.

“Eu já tive isso, o médico falou que não tinha cura também, mas eu passei essa pomada e sarou”. Falou com desdém.

Eu só queria ficar de boa, era cedo demais pra conversas no metrô lotado sobre a minha pele, com um cara que nem conheço, mas que se achava o Doctor House (dessa vez interpretado pelo Danny Devito bronzeado) e que falava alto demais. “Moço, eu já tentei todo tipo de pomada, mas beleza, depois vou ver essa aí”. Começo a recolocar meu fone pra ver se ele para de falar.

“Isso aí eu peguei na praia, mas usei essa pomada e limpou tudo”. Ele estava quase tocando na minha mão!

“Isso não se pega, isso se tem. Não passa” – queria dizer que não passa pra ninguém.

“Passa sim, os médicos dizem que não cura, mas essa pomada curou, isso é micose”. Nesse momento, percebi os olhares se voltando pra mim e quem estava perto se encolhendo com medo de pegar micose.

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Pensei: PUTAQUEPARIU ESSA PORRA É O DRAUZIO VARELA AGORA?! Falei: “tá bom moço, você entende mais que os médicos que eu vou há mais de 10 anos”.

Era a minha estação. Saí do metro apressada, com raiva, vergonha, vontade de bater nesse cara, vontade de chorar, etc. Fui trabalhar chateada, mas ao longo do dia passou.

Passaram alguns dias. Metrô lotado, um lugar vagou e eu sentei. Em alguns segundos que estava lá sentada, percebo que uma pessoa do meu lado me olha.
“Hein? Eu já tive isso aí que você tem. Passa pomada tal”
“Caralho você de novo?” Levantei e saí do vagão, fui pra outro e fiquei de pé mesmo.

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